A poda
Levei minha avó ao hospital e fiquei onze horas. Não foi o diagnóstico que me marcou, foi o tempo, e o gosto de depender. Sobre o sistema que te mantém contente com o pouco, por que o "mais vale um pássaro na mão" é mentira, e por que escolher um caminho é podar todos os outros pra esse um dar fruto. Começou numa aula do Flávio Augusto, ganhou corpo num corredor.
Tem uma coisa que o Flávio Augusto cravou numa aula e que não saiu mais da minha cabeça: estabilidade não existe. Não à toa é o nome que ele deu pro curso. Ele passou a aula inteira descrevendo um sistema que cria a galinha presa pra engordar e ir pra panela, que ensina a pessoa a agradecer pela coleira, que mantém todo mundo contente com o pouco pra continuar sendo alimentado. Um sistema que não te odeia, porque odiar daria trabalho. Ele só te usa. O conforto é a coleira: te dão o suficiente pra você não querer sair, nunca o suficiente pra poder. Eu ouvi, concordei de cabeça e segui a vida, achando que era teoria bonita.
Isso foi há mais de um mês e meio. A ideia não me pegou quando eu ouvi. Ficou guardada, quieta, sem fazer barulho. Esperou. Até o dia em que eu levei minha avó ao hospital e vi, com meus olhos, exatamente o que ele tinha descrito.
Ficamos onze horas até um médico olhar uma tomografia. Não foi o diagnóstico que me marcou, ele seria o mesmo de qualquer jeito. Foi o tempo, e ver alguém que eu amo esperar sem eu poder encurtar aquilo em um minuto. Onze horas numa cadeira, esperando uma máquina, uma energia que faltou, uma fila de gente com mais urgência que a nossa. E a certeza, no meio daquilo, de que mil reais teriam nos tirado dali em três horas, talvez menos.
Não que eu quisesse que dinheiro comprasse saúde. Dinheiro não compra saúde, não compra vida, não compra mais um dia de ninguém. Mas naquele corredor ele compraria a única coisa que faltou: tempo, e o direito de não ser só mais um numa fila. A diferença entre depender e escolher. Foi a primeira vez que eu provei, na boca, o gosto de depender. A teoria do Flávio tinha ganhado o rosto da minha avó. Ele me deu o nome. A vida me deu a prova.
Aquele lugar estava cheio de médico, de gente que o mundo chama de elite. Senti, por um instante, a vontade de me encolher, como se eu fosse menos por estar do lado de fora daquele jaleco. Mas conversei com um neurocirurgião ali de humano pra humano, de igual. Porque o título é uma roupa. Por baixo dela, o sistema também ordenha aquele médico, ele só vende a hora dele numa gaiola dourada. O medo de me sentir menor naquela sala é o mesmo medo que mantém todo mundo parado, o medo de ser julgado por quem parece estar acima. E esse medo é mentira, um resto de um tempo em que ser expulso da tribo era morrer. Hoje você fala torto na frente de quem admira, e o mundo segue girando. Ninguém morre.
E quando olhei pra trás, vi que a coleira não tinha começado naquele hospital. Cresci ouvindo a trilha sonora de quem já tinha aceitado ela. "Mais vale um pássaro na mão do que dois voando." "Melhor pingar do que secar." Quem me dizia isso não dizia por mal, dizia porque foi o que segurou a vida deles de pé, num mundo que pra eles era escasso de verdade. Era a armadura deles. Só que armadura de um vira gaiola do outro, e eu passei anos vestindo a deles sem perceber.
Porque o que eu escuto e apenas aceito não fica parado. Vira semente. A semente vira árvore. E um dia eu olho pra dentro e o pomar que eu chamo de vida está cheio de árvore que eu nunca plantei de propósito, só deixei crescer. Não quero mais árvore quase morrendo no meu pomar. E pra isso eu preciso de duas coisas que ninguém me ensinou.
A primeira é arrancar. Aquele "mais vale um pássaro na mão" é mentira, não porque um pássaro seja pouco, mas porque te faz acreditar que só existem aqueles dois voando. Existem bilhões de pássaros, em outras cidades, outros estados, outros países. E nem é só pássaro: tem boi, tem galinha, tem coelho, tem caminho que eu ainda nem sei o nome. O mundo não é fechado. Quem só enxerga o pássaro na mão não está sem opção, está sem visão.
Mas ver a abundância não basta. Foi o engano que eu quase cometi, achar que liberdade é manter todas as portas abertas. Um homem parado olhando bilhões de pássaros continua com a mão vazia. A segunda coisa, a mais difícil, é cortar. E cortar dá medo, o mesmo medo da sala dos médicos, o medo de escolher e perder o que eu não escolhi. Mas eu escolho assim mesmo, torto se for preciso, porque fazer com medo é o que prova que é pra valer.
Escolher é cortar. No instante que eu digo "esse caminho", eu mato todas as outras vidas que eu poderia ter vivido. Eu poderia ser outras coisas. Escolhi a comunicação, e escolher a comunicação foi enterrar todos os outros Vitores que existiam só como possibilidade. Parece perda. É poda.
O Flávio chama isso de ruptura, romper com o ponto que prende. Ele tem a pressa de quem rompe; eu tenho a paciência de quem planta, de café e de tempo. No meu idioma a mesma verdade não é ruptura, é poda. O jardineiro não corta o galho porque odeia o galho. Corta porque a seiva que se espalha fina em dez galhos medianos, quando desce inteira num só, faz aquele um dar fruto. Os outros Vitores não foram jogados fora, foram concentrados na profundidade desse. Eu não perdi as outras vidas. Virei elas raiz desta.
E não escolhi a comunicação por acaso. Escolhi o único terreno onde eu paro de depender, onde o que eu construo é meu, compõe com o tempo, e ninguém me tira. Saber fazer o que eu faço, e saber vender o que eu faço, é a diferença entre esperar na fila dos outros e marcar o meu próprio passo. Vender, no fim, é o que me deixa escolher em vez de depender.
E a régua, no fim, não é o pomar do vizinho, nunca foi. Eu não sei de onde os outros partiram. Sei exatamente de onde eu parti: do Vitor que aceitava a coleira calado. É contra ele que eu meço. Nessa conta só tem dois resultados, avançar ou aprender. Perder, nunca.
O Flávio fala de um homem que mora ao lado de um rio fedido e, com o tempo, para de sentir o cheiro. Se acostuma, e passa a achar que aquilo é a vida que lhe coube. Onze horas num hospital foram o dia em que eu voltei a sentir o cheiro. E decidi uma coisa simples: não quero mais nadar no rio sujo.
Podei o resto. Agora é regar.