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O Peso da Sabedoria e o Respiro da Lucidez: Reflexões Sobre o Capítulo 7 de Eclesiastes

18 de maio de 2025 5 min de leitura

Publicado originalmente no Medium: https://medium.com/@vitorhugoeu/o-peso-da-sabedoria-e-o-respiro-da-lucidez-reflex%C3%B5es-sobre-o-cap%C3%ADtulo-7-de-eclesiastes-031cb27cc61e?source=rss-77c1e4cdc6d0------2


O capítulo 7 começa com um Salomão aparentemente mais centrado, mais lúcido como se, por um momento, tivesse tirado a névoa da tristeza dos olhos. Mas ainda assim, seus pensamentos oscilam entre a sabedoria e uma desesperança que beira o niilismo.

Ele diz que o nome limpo vale mais do que o perfume mais caro, e que o dia da morte é melhor do que o do nascimento. Aqui, ele volta a repetir o mesmo lamento dos capítulos anteriores. Parece que Salomão está preso a uma percepção de mundo onde a morte é consolo, e não fim. É como se ele repetisse tanto esse tema, que seu cérebro já tivesse moldado essa trilha um atalho mental que o leva sempre para o mesmo lugar escuro.

O vento do pessimismo e o peso da consciência

Salomão diz que é melhor ir à casa de luto do que à de festa, pois o luto nos lembra que um dia também morreremos. Em parte, há sabedoria aqui: viver com consciência da finitude pode nos tornar mais presentes. Mas viver obcecado pela finitude, como Salomão parece fazer, é como caminhar com uma pedra no peito. Não se vive o agora quando tudo que se vê é o fim.

Ele diz que a tristeza torna o coração mais compreensivo. E é verdade: a dor nos ensina. Mas não precisamos ser infelizes para sermos sensatos. Felicidade e profundidade podem coexistir. Ser alegre não nos torna tolos, assim como ser triste não nos torna sábios.

A neurociência nos mostra que o cérebro molda seus circuitos com base naquilo que mais acessamos. Isso é chamado de neuroplasticidade: a capacidade que o cérebro tem de se adaptar, reforçando os caminhos que percorre com frequência. Se focarmos constantemente na dor, no medo ou na ausência de sentido, nosso cérebro não apenas registra esses estados ele os fortalece. Como explica Daniel Goleman em Inteligência Social, o cérebro emocional cria atalhos, respondendo rápido com base em experiências passadas. E assim, mesmo que a realidade seja outra, ela é sentida como repetição do mesmo.

Ironicamente, foi o próprio Salomão que escreveu em Provérbios: “Acima de tudo, guarde o seu coração, pois dele procedem as fontes da vida”. E talvez, em Eclesiastes 7, estejamos lendo alguém que deixou o coração exposto demais às tempestades da existência, e esqueceu de protegê-lo com aquilo que um dia ensinou.

O eco do orgulho e o valor da paciência

Salomão valoriza a paciência, dizendo que ela é melhor que o orgulho. Ele alerta para o perigo de viver apenas para se divertir, e também para a armadilha do elogio vazio da bajulação.

E então, ele diz que é melhor o fim de uma coisa do que o começo. Talvez porque, para ele, o fim representa um fechamento, uma conclusão, uma libertação. Mas para quem vive o processo com presença, cada passo tem sentido.

As perguntas que doem mais que as respostas

Ele afirma: “Não diga que antigamente tudo era melhor”. Aqui, Salomão parece criticar a nostalgia vazia aquela que idealiza o passado sem compreender o presente. A única constante é a mudança, e a saudade mal elaborada pode nos prender.

E ainda assim, ele confessa que tentou entender tudo. Tentou alcançar a sabedoria e encontrar respostas para as injustiças e loucuras do mundo. Mas não conseguiu. Ele diz que tudo é profundo demais para ser alcançado e, talvez, aqui esteja uma de suas maiores verdades. Nem tudo tem explicação. E talvez não deva ter.

Entre o equilíbrio e o cansaço

Salomão diz: “Não seja bom demais… nem mau demais”. É um chamado à moderação. Ao equilíbrio. À lucidez. Não se trata de permissividade, mas de reconhecer que os extremos nos destroem. Ser bom demais, sem discernimento, pode nos levar à ingenuidade. Ser mau demais nos mata antes do tempo.

E mais uma vez, ele volta à mulher como figura de perigo. Fala sobre armadilhas, sobre correntes, sobre decepções. Talvez esteja projetando mágoas pessoais. Talvez tenha buscado amor no lugar errado. Como Davi, seu pai, que se deixou levar pelo desejo e pelo erro.

Deus nos fez simples. Nós é que complicamos.

No fim, Salomão escreve uma das frases mais fortes do capítulo: “Deus nos fez simples e direitos, mas nós complicamos tudo”. É um lamento. Mas também é uma chave.

Talvez, se ele tivesse voltado a essa simplicidade com mais frequência, não tivesse mergulhado tanto na amargura. Talvez, se tivesse lembrado que até o vento que tanto mencionava também carrega o frescor da manhã e o sopro da vida, teria respirado melhor.

Salomão queria eternidade. Mas talvez, o que ele mais precisava, era de presença. E quem sabe, se tivesse tirado por um momento a capa de rei, teria ouvido — não bajuladores, mas amigos. Não súditos, mas conselheiros. Porque enquanto tudo era vento para Salomão, talvez o que ele mais precisava era respirar. E até no próprio vento que ele tanto mencionava, talvez estivesse o oxigênio que o manteria mais leve.

O vento, afinal, também pode ser força propulsora. Um barco usa o vento para navegar mas precisa de um leme, ou será levado a esmo. Talvez o que Salomão tenha perdido, no fim, não tenha sido o vento… mas o leme.

E é aqui que entra algo que ele ainda não conhecia: Jesus. No evangelho de Mateus, Jesus convida: “Venham a mim todos vocês que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso… porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mateus 11:28–30).

Salomão carregava pesos demais. E talvez, se soubesse que hoje é possível trocar o fardo não por negação da dor, mas por presença divina teria descoberto que o sentido não estava no saber absoluto. Mas em repousar em algo maior do que ele mesmo.

Salomão era um rei. Mas talvez o que ele mais precisava era de amigos. De trocas sinceras. De pausas. De humanidade.

E nós, ao ler isso hoje, somos lembrados de que sabedoria não é saber tudo. É saber o que fazer com aquilo que a vida nos entrega. Mesmo quando é só vento.

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