O rio fedido
O mesmo instinto de adaptação que fez o ser humano sobreviver a tudo é o que faz alguém morar do lado de um rio fedido e parar de reclamar. Sobre a adaptação que salva e também anestesia, o rio fedido que tem nome (procrastinação, inação, medo), e por que você aceita o inaceitável sem perceber.
Tem uma imagem que o Flávio Augusto usou numa aula e que não sai da minha cabeça. O mesmo instinto de adaptação que fez o ser humano sobreviver à era glacial, às mudanças brutais do planeta, aos cenários mais hostis, é o mesmo que faz alguém morar do lado de um rio fedido e, com o tempo, parar de reclamar.
No começo o cheiro é insuportável. Semanas depois, você nem sente mais. Não porque o rio melhorou. Porque você se acostumou.
A bênção que também é armadilha
A adaptação é uma das coisas mais poderosas que a gente tem. Ela é o que nos mantém de pé quando a vida aperta. Mas ela tem um lado que quase ninguém olha: a mesma capacidade que te salva do sofrimento é a que te faz aceitar o que você não devia aceitar. Você para de sentir o incômodo, e junto com ele para de querer mudar.
O meu rio fedido eu já sei o nome. É a procrastinação. É a inação. É aquele "e se rirem de mim" que trava antes de eu começar. É a tarefa que eu sei que devia fazer e adio, dia após dia, até virar paisagem.
E o Flávio falou de um ônibus, o transporte que leva a pessoa todo dia pelo mesmo caminho, pra mesma rotina, sem ela questionar. Mas eu percebi que o meu ônibus nem sempre é de ferro e roda. Às vezes é o celular. É a hora que escorre. É o querer ter todas as respostas antes de dar o primeiro passo. É querer estar em pé na prancha antes de entrar no mar.
A caverna conhecida
Platão contou aquela história dos homens presos numa caverna, olhando sombras na parede a vida inteira, achando que aquilo era o mundo todo. O que ninguém fala é que sair da caverna dá medo. A luz incomoda. A sombra conhecida é mais confortável que a claridade desconhecida. A gente prefere o rio fedido que conhece ao rio limpo que teria que ir procurar.
A sua condição atual não te define. Mas você define a sua condição atual. E na maioria das vezes, você aceita ela sem perceber.
A boa notícia é que essa aceitação não é uma sentença. A cada segundo dá pra escolher diferente. Eu não nasci desse jeito, não cresci obrigado a esse jeito, e não sou obrigado a morrer nele. A vida não está escrita em pedra.
Então a pergunta que eu fiz pra mim, e que eu te devolvo, é essa: quantas coisas você está aceitando hoje que você não deveria aceitar? Qual é o rio fedido que você já nem sente mais o cheiro? Nomear ele é o primeiro passo pra sair da margem.