Vitor Hugo
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Comunicação

Marketing é potência, não personagem

26 de junho de 2026 5 min de leitura

Um profissional que eu admiro me contou que uma agência mandou ele criar um personagem pra viralizar. Ele se assistiu e não se reconheceu. Sobre por que fingir dilui a sua essência, e por que marketing não cria quem você não é, potencializa quem você já é. Com Jung, Spinoza e um perfume diluído em álcool.

Essa semana sentei pra conversar com um cara que eu admiro de verdade. Ele cuida de gente que se machucou e precisa reaprender a confiar no próprio corpo, voltar a se mover sem medo. É bom no que faz, daqueles que resolvem mesmo. E ainda assim quase ninguém da cidade sabe que ele existe. No meio da conversa ele me contou uma coisa que não saiu mais da minha cabeça.

Ele já tinha trabalhado com uma agência antes. E a agência mandou ele montar um personagem. Falar de um jeito que não era o dele, posar de uma versão mais "vendável", gravar vídeo pensado pra viralizar. Ele me disse, com essas palavras: "eu assisti aquilo e não me reconheci".

Saí dali pensando em quanta gente boa está fugindo de aparecer por causa disso. Não é preguiça, nem medo de câmera. É um tipo de trauma. Mandaram fingir, fingir não encaixou, e a pessoa concluiu que "isso de marketing não é pra mim". Quando o problema nunca foi aparecer. Foi aparecer como outro.

O personagem cobra um preço que não aparece na hora

A gente até veste papéis, isso é humano. O Jung falava dos arquétipos, dessas figuras que a gente encarna em certos momentos: o cuidador, o mestre, o guerreiro. Mas tem uma regra silenciosa aí. O papel precisa ser parente de quem você é. Quando a máscara fica longe demais do rosto, ela começa a rachar.

Racha porque sustentar duas versões de si ao mesmo tempo cansa. A psicologia tem nome pra esse desconforto, dissonância cognitiva: a tensão de carregar duas verdades que brigam dentro de você. Você é uma coisa no vídeo e outra na vida, e essa conta não fecha sozinha.

E o preço maior nem é o seu cansaço. É o reencontro. A pessoa te vê no Instagram, gosta do seu jeito, sente que já te conhece. Aí te encontra pessoalmente, e quem chega não é quem ela viu na tela. Naquele segundo, a confiança que levou meses pra nascer vai embora. Você não perdeu um seguidor. Perdeu a única coisa que faz alguém fechar com você: a sensação de que dá pra confiar.

O perfume e o álcool

Pensa num perfume bom. Não a fragrância já diluída no frasco, mas o óleo, a essência concentrada, aquilo que faz o cheiro ser único e seu. Agora despeja esse óleo dentro de cem litros de álcool. Ele continua ali, tecnicamente. Mas você não sente mais. Diluiu tanto que virou quase nada.

É o que fingir faz com uma pessoa. Cada vez que você se ajusta pra caber num molde que não é seu, dilui um tanto da sua essência. Some justo o que te tornava reconhecível. Fingir parece o caminho mais fácil, mas é o mais caro de todos, porque o que ele gasta não tem reposição. É você mesmo.

O que o marketing faz de verdade

Eu disse pra ele o que penso. Marketing, na minha cabeça, não serve pra criar uma pessoa que você não é. Serve pra potencializar a que você já é. Não inventa o talento, amplifica o que já está ali dentro. Faz mais gente se conectar com o real, não com a fantasia.

Marketing não cria quem você não é. Potencializa quem você já é.

É como calçado. Se não cabe no seu pé, não serve, por mais bonito que seja na vitrine. Comunicação que não é sua não te veste, incomoda o dia inteiro. O trabalho não é fabricar um pé novo pra caber no sapato. É pegar quem já funciona e tornar isso visível, encontrável, viável. Virar alcance o que antes ficava trancado dentro do consultório.

Potência é elevar, não trocar

O Spinoza tem uma definição de potência que eu carrego comigo: potência é a elevação a um estado superior do próprio ser. Repara nas duas últimas palavras. Do próprio ser. Não de outro. Você não vira uma pessoa diferente. Vira uma versão superior daquela que você já é. Isso é incrível, não é mesmo?

É isso que eu busco quando trabalho com alguém. Não montar um personagem que engaja. Ainda mais se for com um público que não é o dele.

Mas sim em elevar a pessoa que já está ali pra que ela alcance mais pessoas que tenham haver com aquela pessoa que ele já busca.

Com aquele profissional não vai ser diferente: o caminho é fazer mais gente chegar até ele sem ele precisar ser outro, até porque as pessoas precisam que ele seja ele. E não outra pessoa.

No fim, eu sou a ponte

Marketing, tráfego, anúncio, posicionamento, tudo isso serve pra uma coisa só: conectar quem precisa com quem resolve, ponto. Nessa história eu não sou o protagonista. Sou a ponte. O instrumento que faz a mensagem certa encontrar a pessoa certa, na hora certa.

Por isso eu não trabalho com qualquer um. Trabalho com quem acredita no que faz. Porque é com gente real, dor real e solução real que dá pra construir algo que dura. Personagem se conecta com plateia. Pessoa se conecta com pessoa. E plateia aplaude; pessoas ficam.

Você não precisa virar outro pra ser escolhido. Precisa ser a coisa mais incrível de ser, você. E ser visto. Dá pra copiar um método, um post, um jeito de gravar. Agora ser você, aí já não dá. É por isso que eu começo sempre pela pessoa, que é o que mais importa, sempre.

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