A vida é bonita demais pra eu falar só de tráfego
Eu olho pra uma folha fazendo fotossíntese e não consigo achar aquilo banal. Sobre o espanto como motor, o pálido ponto azul de Carl Sagan, a ideia de que física, biologia e marketing são o mesmo galho, e por que eu não sou um canal de tráfego, sou uma emissora.
Eu olho pra uma folha e vejo ela pegar a luz do sol e transformar numa energia que vira glicose, que vira vida, que de quebra solta o oxigênio que me mantém de pé. Esse mesmo oxigênio que me sustenta é o que me oxida, que me envelhece por dentro. Eu paro nisso e penso: como é que isso não é a coisa mais absurda de bonita que existe?
Os gregos tinham uma palavra pra esse estado: thaumazein. Espanto. Aristóteles dizia que a filosofia começa exatamente aí, não na lógica, não no argumento, mas no momento em que alguém olha pra uma coisa que todo mundo passa por cima e fala: espera, isso aqui é grande demais.
O pálido ponto azul
Em 1990, a sonda Voyager estava a seis bilhões de quilômetros da Terra. Carl Sagan pediu pra virarem a câmera pra trás, pra fotografar a nossa casa. Na foto, a Terra aparece como um grão de poeira suspenso num raio de sol. Um pálido ponto azul. E ali dentro daquele ponto está tudo: toda guerra, todo império, toda pessoa que você ama, todas que você ainda vai conhecer, todas que você nunca vai conhecer. Tudo, naquele pixel.
A gente está num braço da Via Láctea, num planeta na distância exata do sol pra existir vida, com uma lua que segura as marés e um Júpiter que puxa os cometas pra longe da gente. E consegue contemplar isso. Estar vivo e poder olhar pra cima é o improvável acontecendo o tempo todo.
Física, biologia e marketing são o mesmo galho
Tem um biólogo, E. O. Wilson, que escreveu um livro inteiro sobre uma ideia chamada consiliência: a de que todo conhecimento humano é, no fundo, uma coisa só. Física, biologia, filosofia, arte, economia, são galhos da mesma árvore. E as descobertas mais fortes acontecem nas bordas, onde um campo toca o outro.
É ali que eu gosto de morar. Quando eu falo de tráfego pago passando pela termodinâmica, pela fotossíntese, pela história da Babilônia, não é firula. É que pra mim, marketing bem feito é indistinguível da realidade. Ele obedece às mesmas leis que governam a biologia, a química, a história. Nada é de graça, tudo custa energia, tudo é movimento, tudo quer ser visto. Do átomo à pessoa.
Eu não sou um canal. Sou uma emissora
A Globo vende carro, cerveja, chinelo e apartamento no mesmo lugar. Porque o ativo dela não é o produto, é a atenção. Se eu falasse só de tráfego, no dia que você contratasse um gestor, não precisaria mais de mim. Mas o que eu transmito é mais largo que qualquer nicho. Não é estratégia de diversificação. É como a minha cabeça funciona: eu não consigo falar de anúncio sem passar pelo humano, e não consigo falar do humano sem passar pelo universo.
Isso é o mais difícil de copiar que existe. Identidade se imita, persona se copia, nicho se replica. A forma como alguém enxerga o mundo, não. É o DNA de quem vê.
A vida é bonita demais pra ficar só eu contemplando e não poder compartilhar.
Eu já falei essa frase algumas vezes, até em vídeo. E é ela que me faz continuar. Se a vida é pequena, passageira, num cantinho de uma galáxia qualquer, então tudo que eu tenho de fato é o que eu compartilhei enquanto estive aqui. Compartilhar o que eu vejo não é vaidade. É a coisa mais honesta que eu sei fazer: emprestar a minha lente por um segundo e dizer, olha, o mundo é bonito pra mim, porque eu vejo dele assim.