Vitor sendo Vitor
Me peguei lendo de manhã e justificando a leitura como se ela precisasse render alguma coisa. Percebi que tinha pedido permissão pra existir. Sobre a diferença entre fazer algo pra performar e fazer pra ser mais você. Com Sêneca, Descartes e um almoço que ninguém precisa justificar.
Outro dia eu tava lendo às dez da manhã. Um livro que não tem nada a ver com o meu trabalho, só um livro que eu gosto. No meio da leitura, me peguei fazendo uma conta na cabeça: "isso talvez ajude no serviço depois, como efeito colateral". Parei. Percebi o que eu tinha acabado de fazer. Eu tinha pedido permissão pra existir.
Coloquei a leitura num tribunal interno e mandei ela se defender, provar que servia pra alguma coisa. Como se ler por prazer precisasse de um recibo.
Fomos treinados pra justificar tudo
A gente aprende cedo a medir o que faz pelo que rende. Serve pra quê? Vai me dar o quê? O que os outros vão achar? Cada escolha passa por essa peneira, e o que não rende resultado visível parece perda de tempo. É um jeito de viver que funciona pra produzir, e que corrói a gente.
Sêneca já via isso faz dois mil anos. Ele dizia que as pessoas são avaras com o dinheiro e esbanjadoras com o tempo. Defendem cada moeda e entregam anos inteiros pra qualquer um: o cliente, o chefe, a opinião alheia, a próxima tarefa urgente. E ele propõe um exercício que dói. Fazer o cômputo da própria vida. Calcular quanto tempo o credor, o cliente, as brigas, as perambulações tiraram de você.
Mas a conta não é pra te entristecer. É uma auditoria de soberania. A pergunta real não é "quanto tempo você perdeu". É: de quanto do seu tempo você é o dono legítimo?
Penso, logo existo. E daí escolho como
Descartes disse "penso, logo existo" pra provar, num mundo de dúvida, que ele existia. Era uma prova lógica. Só que eu percebi que uso essa frase de um jeito diferente, e sem querer fui além do que ele quis dizer. Pra mim virou: preciso pensar pra ser mais eu.
Isso não é Descartes. Descartes prova que existe. Eu escolho como existir. Ler, pensar, conectar ideia com ideia, isso não me deixa mais útil pros outros. Me deixa mais eu pra mim mesmo. E isso basta.
Alimento não pede recibo
Eu tentei explicar isso comparando com remédio, e a comparação estava errada. Remédio você toma por função, pra curar uma dor. O livro não é remédio. É alimento.
E ninguém justifica por que comeu. Você não senta pra almoçar e explica que o arroz dá energia e o feijão traz aminoácido pra você poder trabalhar. Você come porque precisa, porque gosta, porque é o que mantém você de pé. Tem coisas que a gente faz assim: não pelo que elas rendem, mas porque são o que nos torna quem somos.
O maestro afina o próprio ouvido
Eu tô construindo uma empresa, fechando contrato, mirando meta. Isso é olhar pro futuro, e é necessário. O risco é adiar a pessoa que eu quero ser até o dia em que o negócio estiver pronto. Só que esse dia tem o mesmo endereço dos "cinquenta anos" que Sêneca critica. Muda o número, a lógica é a mesma.
Os grandes regentes de orquestra estudavam filosofia, liam em línguas que não eram as deles, cultivavam uma vida interior intensa. Não porque fosse útil pra reger. Porque era isso que os deixava capazes de ouvir o que os músicos não ouviam. O maestro que só executa, que só entrega, que só performa, perde o ouvido.
Ler de manhã não é desvio de rota. É o coração batendo no ritmo certo pro resto do corpo funcionar.
Foi aí que caiu a ficha, e eu resumi numa frase que ficou. Eu leio porque gosto de ler, porque gosto de aprender, porque gosto de pensar. Não por performance. Porque é o Vitor sendo Vitor.
E talvez seja isso o mais difícil de aceitar num mundo que cobra recibo de tudo: que algumas das coisas mais importantes que você faz não vão aparecer em relatório nenhum. Elas não te tornam melhor pros outros. Te tornam mais inteiro pra você. E é dessa completude que sai tudo o mais.