Vitor Hugo
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Você é a festa

04 de julho de 2026 4 min de leitura

A minha avó pegou o guardanapo da minha mão e mandou guardar pra quando tivesse visita. Eu perguntei: a gente não é importante o suficiente? Sobre guardar as coisas boas pra uma ocasião que nunca chega, e por que a ocasião especial é você. Com Sêneca, o 'como' de um mandamento, Taleb e um guardanapo.

Esses dias eu tava usando um guardanapo aqui em casa. A minha avó pegou da minha mão e disse pra deixar pro fim de semana, quando tivesse gente. Eu parei e perguntei: mas a gente não tá em casa? A gente não é importante? A gente não é especial?

Ela não respondeu com maldade. Respondeu com um hábito. E foi esse hábito que não saiu mais da minha cabeça.

A casa dela é cheia de coisa boa guardada. Pano de prato novo esperando ocasião. Taça no fundo do armário. O prato bonito que só sai em data “especial”. Tudo separado pra um dia que “merece.”

E enquanto esse dia não chega, a gente usa o segundo melhor. O terceiro. Ou nem nunca usando o que é melhor.

A ocasião que nunca chega

Tem uma coisa estranha nisso. A gente guarda o melhor pra um futuro que não conhece. Programamos de usar a roupa daqui a três anos, e nesse meio tempo ela amarela, sai de moda, não serve mais. Guardei tanto que perdi. Não usei da forma que eu poderia, usar apenas quando for um dia especial.

Sêneca escreveu sobre isso faz quase dois mil anos. Ele dizia que as pessoas brigam com pedra e faca pra defender um palmo de terra, mas deixam qualquer um roubar anos inteiros da própria vida sem reclamar. A gente tem avareza com o dinheiro e pródigo com o tempo. Guarda o que enferruja e gasta o que não volta.

O guardanapo é pequeno. Mas ele é a versão física de uma pergunta grande: pra quem, exatamente, você está se guardando? Para que ocasião especial é essa? Pra que momento seria então?

O "como" que ninguém para pra ler

Tem uma frase que eu ouvi a vida inteira: ama o teu próximo como a ti mesmo. Eu li isso na bíblia, em citação, em parede. Mas semana passada eu travei numa palavra que sempre passou batida. O "como".

Ela não está ali por acaso. É a estrutura inteira do argumento. O amor que você tem por si é a medida de tudo que vem depois. Sem essa medida, o amor ao próximo não tem referência. Vira obrigação, vira performance, vira um copo furado tentando encher outro.

E tem uma segunda camada que me pegou. Dentro da fé que é a minha, alguém morreu por mim, por você no maior sacrifício que existe. Você entrega tudo por algo descartável, por algo que não tem importância? Ninguém morre por lixo. Aquele gesto, se você parar pra pensar, é uma declaração de valor, de amor. Você é importante o suficiente pra isso.

O que fica guardado, deteriora

O Nassim Taleb fala de coisas que melhoram com o uso e coisas que apodrecem paradas. O músculo não fica forte sendo poupado. Fica forte sendo exigido. Preservar é a forma mais garantida de estragar. Irônico e contra intuitivo, não é?

O guardanapo trancado no armário amarela. Perde a qualidade. Acumula o tempo parado. O guardanapo usado cumpre a função pra qual nasceu. E se rasgar, você compra outro. Isso não é desperdício. É o objeto vivendo.

O mesmo vale pra você. O talento guardado não está em espera, está deteriorando. Acredito que por isso eu comecei a gravar vídeos, pois acredito que tenho um talento a ser desenvolvido.

O carinho que você não diz não está seguro dentro de você, está murchando. A vida poupada pra uma data futura não está sendo preservada. Está sendo desperdiçada em câmera lenta. Penso que a vida é como uma ampulheta, que vem em média com 4000 semanas, e quanto mais os dias passam, mais o tempo se esgota.

A minha avó não é a vilã

E eu não conto isso pra criticar ela. Ela foi formada por uma geração que viveu escassez de verdade, onde guardar era sabedoria e preservar era lógico. Totalmente coerente dentro do mundo em que ela cresceu.

O problema é quando esse software antigo continua rodando numa realidade nova. Quando a falta já foi embora mas o medo dela ficou. Quando a visita ainda vale mais do que você mesmo, sem que ninguém tenha decidido isso.

Você é a festa

A Madre Teresa disse uma vez que o que ela fazia era uma gota no oceano. Mas que sem aquela gota, o oceano seria menor.

E penso que você, que eu, nós não somos periféricos à nossa própria vida. Tirar não é perder pouco, é o oceano ficando realmente menor.

A ocasião especial não vem depois. Ela é você. Acordado, vivo, aqui, enquanto estamos aqui.

Então amanhã de manhã, usa a xícara boa. Veste a roupa que você guardaria pra quando merecesse. Lê o livro que está na estante esperando o momento certo. O momento certo é agora, porque é o único que existe.

Amar a si mesmo não é egoísmo. É o começo de tudo. Você não consegue dar o que não tem. E enquanto você espera a data especial pra viver, a vida vai passando com o pano de prato bom dobrado no armário.

Usa o guardanapo. Afinal, você é a festa.

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